A perdiz
Helena. O nome dela. O seu corpo: um mundo. Não se percam em explicações. Isto não é cliché. É uma tentativa inútil de fugir da minha estúpida existência. Já conto sessenta anos. São muitos, acreditem. Muitos anos fechado em gaiolas de ar invísivel, acorrentado por amarras de dor. Dava para chegar à água, ao néctar da vida: ao corpo dela. Os longos cabelos escondiam-lhe as costas. As pernas altas e finas apoiavam-se em sapatos altos cor de mel, sempre a mesma cor. Mas o resto sempre diferente. O seu olhar azul projectava imagens de sonhos de infância. Parecidos aos meus: viajar de comboio pela América do Sul, ir ao Ártico e subir o monte Evereste. Cada dia um sonho antigo. Cada sonho antigo um desejo de continuar a existir. Helena. De nada te serviu a beleza. Morreste sufocada por demasiados sonhos. Afogada no medo de não os conseguir cumprir. Helena: continuo a percorrer o teu corpo. Quero-te. Desejo-te.

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