Senhora Menina
Passou tanto tempo, senhora menina.
Tanto tempo que não sentias este cheiro de gente, das ruas, dos sons. De olhos fechados sentes aqui uma padaria, ali um beco onde bêbados urinam todas as noites no caminho errante para casa, do outro lado cheira às velas das sessões espíritas, mais à frente à gravidade das coisas.
Tanto tempo. Esperara tanto tempo para agora sentir tanto frio. Para ter agora saudades da cama, das almofadas, do mofo que se instalara entre ela e o musgo do sofá verde.
Vivera cinquenta anos em casa, sem nunca saltar pela janela, entre os corredores da cozinha, para a sala transformada em enfermaria. Anos que passaram tão repentinamente que a imagem do espelho permanecera congelada entre um tempo e um lugar antigo.
Perdera na memória como acontecera, qual fora o dia em que ficara de castigo para sempre. Deixara-se ficar a obedecer a ordens, mesmo quando os pais caíram doentes.
Sorri, senhora menina. Sorri! Faz um gosto ao universo e destabiliza a harmonia vã das linhas do teu corpo sem idade e sem história. A tua expressão, o teu coração serão ainda os mesmos? Que resinas se colaram aos teus gestos? Serás capaz de lançar a tua voz para além dos espaços fechados?
Esconde as lágrimas, senhora menina. Aquele homem lá ao fundo é ele. Mas onde pára essa lembrança? Cabelos brancos, coxeia, parece mais pequeno, mais torto. Não é o mesmo que voa na sua memória.
A voz é a mesma, senhora menina. Vai atrás dele, vai. Olha-o. Desafia-o para um duelo ou entoa uma gargalhada. Não deixes fugir mais nada. Lembra o toque de uma mão escura e áspera. Lembra o cheiro a incenso com que perfumavas os teus cabelos, na ausência de perfume. Lembra o que foi um beijo.
A tua carne arrefece com o som da voz.
- Bom dia.
Tanto tempo que não sentias este cheiro de gente, das ruas, dos sons. De olhos fechados sentes aqui uma padaria, ali um beco onde bêbados urinam todas as noites no caminho errante para casa, do outro lado cheira às velas das sessões espíritas, mais à frente à gravidade das coisas.
Tanto tempo. Esperara tanto tempo para agora sentir tanto frio. Para ter agora saudades da cama, das almofadas, do mofo que se instalara entre ela e o musgo do sofá verde.
Vivera cinquenta anos em casa, sem nunca saltar pela janela, entre os corredores da cozinha, para a sala transformada em enfermaria. Anos que passaram tão repentinamente que a imagem do espelho permanecera congelada entre um tempo e um lugar antigo.
Perdera na memória como acontecera, qual fora o dia em que ficara de castigo para sempre. Deixara-se ficar a obedecer a ordens, mesmo quando os pais caíram doentes.
Sorri, senhora menina. Sorri! Faz um gosto ao universo e destabiliza a harmonia vã das linhas do teu corpo sem idade e sem história. A tua expressão, o teu coração serão ainda os mesmos? Que resinas se colaram aos teus gestos? Serás capaz de lançar a tua voz para além dos espaços fechados?
Esconde as lágrimas, senhora menina. Aquele homem lá ao fundo é ele. Mas onde pára essa lembrança? Cabelos brancos, coxeia, parece mais pequeno, mais torto. Não é o mesmo que voa na sua memória.
A voz é a mesma, senhora menina. Vai atrás dele, vai. Olha-o. Desafia-o para um duelo ou entoa uma gargalhada. Não deixes fugir mais nada. Lembra o toque de uma mão escura e áspera. Lembra o cheiro a incenso com que perfumavas os teus cabelos, na ausência de perfume. Lembra o que foi um beijo.
A tua carne arrefece com o som da voz.
- Bom dia.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home