Deus me perdoe
De onde está Marco só se vê o portão. De ferro enferrujado pelo tempo que passou demasiado depressa. Marco caminha em passos de tartaruga. Sente-se leve. Sabe que começa uma nova vida. Ou pelo menos, um novo caminho. Como será? «Pensa.» Caminha. Vai Marco, caminha.
Os castanheiros, as árvores velhas deste sítio, protegem o caminho de terra batida. Choveu. Há lama. As botas de Marco colam-se e Marco hesita e pára. De imediato, um dos guardas dá-lhe um empurrão. Deve continuar a andar. E assim acontece. Sente-se protegido pelas paredes verdes e pelo tecto transparente. Já se vê o edifício, imponente na vegetação que o rodeia. «Enorme» pensa a sua voz interior. As janelas são fechadas por grades tão ferrugentas quanto o portão e nelas os outros prisioneiros fecham as suas mãos para içar o seu corpo. Só assim conseguem ver quem é o próximo.
Marco chora. Chora por ser mais fácil violar e matar uma mulher indefesa do que entrar num antro de assassinos. Na nova vida ou neste novo caminho, Marco torna-se uma possível caça. Saberá o que é viver com medo de lhe apunhalarem pelas costas. Saberá o que é morrer sem causa, apenas por causa de alguém que age de forma propositada.
Chegam à porta da prisão. Há silêncio. Como se alguém pedisse ao mundo para se calar. Marco entra. «Deus, perdoa-me» pensa para si.
Chegam à porta da prisão. Há silêncio. Como se alguém pedisse ao mundo para se calar. Marco entra. «Deus, perdoa-me» pensa para si.
Nós não lhe concedemos perdão e esperamos que a natureza faça justiça. Ou talvez não.

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