sexta-feira, novembro 24, 2006

O velho que vive além

O velho que vive além fala pouco. Por vezes pede esmola, outras vezes vasculha no lixo. Olha distraído para o movimento das ruas e segue, sozinho, em direcção a coisa alguma. A única coisa que o faz entristecer é saber que certos olhos de criança experimentam espanto e medo perante o sossego com que repousa na calçada.

Um dia fora calceteiro. Um dia as suas mãos, outrora hábeis, sabiam de cor as pedras e a cor que nelas há. Mas hoje poderá culpar a loucura, mesmo sem nunca ter sofrido dela.

Falhar na vida é tão semelhante a vencer. Basta um motivo.

O velho que vive além pensa muito.