terça-feira, outubro 31, 2006

Caminho iluminado

Um novo rumo

O ar parecia xarope para as dores de garganta. O mar... distante. A voz dentro de mim questiona-se. Importuna-me com os seus desejos. Desejos que são tentação. Ou tentação que é desejo. Não percebo bem. Conheço as palavras mas desconheço os seus significados. Qual será o significado desta voz? Conhecerei o mar? Espero que sim. Falta pouco para me soltar das amarras. Falta mais um pouco de força e de coragem para quebrar o portão em lascas de memória antiga. Serei como o gato que espreita entre os coágulos de xarope. Serei como o instinto que o impulsiona a conhecer o desconhecido. A saboreá-lo sem palito nos dentes. A deitar-me com ele depois do portão. Aceito o teu desafio e no mar lavarei a minha roupa suja de teias de aranha.

O desafio entre as folhas espreita


Virar à direita e seguir

Dou dois passos por dia.

Um bem de manhã, outro logo após a descida de qualquer objecto que se precipite pelo céu. Em direcções arritmicas arristo, lentamente, por um ou outro abismo que, de tão negro, grita dentro dos meus olhos.

Tacteio em jeitos de fada o tecto que cresce, ou as pernas que estão tão longe dos meus pés, as paredes que se contorcem em rebornos de cetim.

Onde está o fim deste labirinto? Onde encontrarei o jardim que perdi pelo caminho?

Procuro em mim a bússola que está escondida nos neurónios que são, afinal, emoção.
O caminho. Afinal era virar à direita.

Por onde devo ir?

Nunca pensei em fugir

Fugir? Nunca pensei nisso. Parece-me demasiado ousado. Mesmo que do outro lado haja um jardim parecido ao dos contos de fadas. Com árvores que tocam o céu, com lagos que preenchem o olhar, com criaturas que cantam e dançam ao som do vento suave que sopra de Leste, com estátuas vivas que servem para indicar caminhos. Não. Ensinaram-me a temer o desconhecido, a fechar os olhos e calar-me no contentamento de conhecer pouco. Não preciso de conhecer mais. Fico-me pelas fotografias, pelas imagens de sítios longíquos que nunca conseguiria imaginar. Fico-me pelas músicas de outros países, pelos filmes que passam na tela familiar. Não preciso de ir lá para ver, cheirar, saborear, enfim, para sentir o desconhecido. Eu fico sempre atrás do portão.

Do outro lado há um jardim

segunda-feira, outubro 30, 2006

No reino da escuridão

No reino da escuridão mora um monge.

Nessa escuridão moram pedaços de silêncio entre o som de vidas cumpridas. Noutros dias, em todos os pedaços de chão descobrira vida. Noutros lugares, em todos os poços encontrara água que mata toda a sede. Noutros tempos, em todas as mãos sugara o amor.

Cada segundo é passado a olhar para cima, em direcção à luz. Na luz vivera, fora liricamente feliz, mas também nela saíra derrotado. Tornara-se monge para escapar à morte que é ficar sem destino.

Num golpe de susto, sobe. Cada degrau cumprido é aversão à luz e à escuridão. Rasga as vestes coladas de musgo envelhecido. Homem novo, descobre caminhos de sombra e brasa, rituais de iniciação em declínio, ascensão de tantos outros.

O seu pensamento desce, num lance, à penumbra, doce exílio do recolher sombras.

De olhos bem abertos sonhará, sempre, na sempre eterna noite.

Alcança a luz mas não esqueças a escuridão