terça-feira, janeiro 30, 2007
Tantos nós no cabelo branco do tempo
O tempo.
Os dias nascem e morrem com a certeza inata da fragilidade das folhas, dos corpos, da lentidão dos sofrimentos e da rapidez da felicidade.
Ao longe um rei desaparecido acena para o pó dos seus súbditos, indiferente a ninguém o reconhecer. Por dentro ninguém está encoberto.
No fim talvez um julgamento. A pergunta mais feroz: que fizeste tu do teu tempo?
Prendeste-te a quê e para quê? Qual o significado dos teus vagos vestígios? Que sentimentos motivam as cobertas que foste vestindo?
O tempo far-nos-á todas estas perguntas. E os nossos olhos confusos e perdidos iniciam a viagem da memória, entre tantos nós de cabelos tão brancos.
Os dias nascem e morrem com a certeza inata da fragilidade das folhas, dos corpos, da lentidão dos sofrimentos e da rapidez da felicidade.
Ao longe um rei desaparecido acena para o pó dos seus súbditos, indiferente a ninguém o reconhecer. Por dentro ninguém está encoberto.
No fim talvez um julgamento. A pergunta mais feroz: que fizeste tu do teu tempo?
Prendeste-te a quê e para quê? Qual o significado dos teus vagos vestígios? Que sentimentos motivam as cobertas que foste vestindo?
O tempo far-nos-á todas estas perguntas. E os nossos olhos confusos e perdidos iniciam a viagem da memória, entre tantos nós de cabelos tão brancos.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
FIM
Uma casa tem portas e janelas. Entradas e saídas de energia. O começo. O fim. Dia após dia construí um corredor, tornou-se largo, com betúnias penduradas no tecto. Belo como eu sempre quis. Depois um dia, que não me lembro, o corredor começou a ficar apertado. Não cabe lá mais ninguém a ser eu. Tem exactamente a minha largura mais dois centrímentos. O suficiente para me poder deslocar por ele. Hoje cansei-me. Hoje deixei de construir. Hoje é o fim de qualquer coisa.
sábado, janeiro 27, 2007
Ladrões de bicicletas
Um filme italiano, visto num dia quente, numa sala fechada. Não um filme qualquer, mas o filme que faz esquecer o quente, o fechado, a presença de pessoas num espaço iluminado, contrário aos princípios do cinema.
Este filme não se pode contar, quanto muito vê-lo. Deve-se senti-lo.
A todos os ladrões de bicicletas, da liberdade, do futuro, da dignidade, dedico-vos hoje todo o meu pesar.
Que jamais nos tornemos um deles.
Este filme não se pode contar, quanto muito vê-lo. Deve-se senti-lo.
A todos os ladrões de bicicletas, da liberdade, do futuro, da dignidade, dedico-vos hoje todo o meu pesar.
Que jamais nos tornemos um deles.
sexta-feira, janeiro 26, 2007
Lembro-me
Do teu rosto lembro-me dos teus cabelos. Castanhos claros, torneados pela luz, caídos pelos ombros, as pontas soltas. Espigões que picavam o meu coração ansioso por te amar. E amar, amei-te. Como o Sol e a Lua que todos os dias seduzem a vida. Todos os dias. Amei-te e amo. E quando o digo esqueço-me dos teus cabelos e lembro-me dos teus lábios. Tenho sede deles.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
O guardanapo
Deixas cair sempre o guardanapo. Nunca tens cuidado. Limpas as mãos na toalha. Comes com as mãos sem vergonha. A gordura que te escorre pelos dedos passa para a tua testa, os teus cabelos compridos comem lado a lado contigo.
A civilidade esqueceu-se de aparecer no teu baptizado. A fada madrinha que jamais apareceu.
Agora, arrotas de satisfação. Dizes que faz bem. Faz mal apertar. E ris.
Nunca sujas o guardanapo.
A civilidade esqueceu-se de aparecer no teu baptizado. A fada madrinha que jamais apareceu.
Agora, arrotas de satisfação. Dizes que faz bem. Faz mal apertar. E ris.
Nunca sujas o guardanapo.
Procuram-se Respostas
Não são cacos de tijolo e pedra. São pedras preciosas. Esmeraldas, rubis e diamantes. Estarei certo? A minha voz interior desconfia. Percorre o meu cerébro. Confunde-me. Serão mesmo cacos de tijolo e pedra? Não sei. O passado trouxe-me novidades. Viajou depressa pelo azul do infinito, pousou num rainuco e disse-me: sofrerás no futuro. Mas isto é tudo um sonho e do passado não me lembro. Ou será que foi o passado que me esqueceu? Tentanto, talvez, apagar a minha existência do universo. A verdade é que não sei mesmo. E tudo me confunde e incomoda. Tento apagar a luz dos meus olhos, o sossego dos meus lábios, inútil. É o que eu sou. Estúpida, a minha atitude. Irreal, a minha vida. Porque não posso eu conhecer o passado? O que me esconde ele? Terá Deus as respostas que procuro? Onde estás Tu?
terça-feira, janeiro 16, 2007
Coisas que não são
Em cada passo recto por estas escadas íngremes escorre a lembrança de coisas que não são.
Lá ao longe, em cadeias infinitas de casas brancas surge a canção do fim de dia e a celebração em corneta graves de mais um movimento da terra.
Todo este instante se desdobra em infinitos arrastamentos do tempo, tudo porque existe amor naquele ser. É ela!
Lá ao longe, em cadeias infinitas de casas brancas surge a canção do fim de dia e a celebração em corneta graves de mais um movimento da terra.
Todo este instante se desdobra em infinitos arrastamentos do tempo, tudo porque existe amor naquele ser. É ela!
segunda-feira, janeiro 15, 2007
A perdiz
Helena. O nome dela. O seu corpo: um mundo. Não se percam em explicações. Isto não é cliché. É uma tentativa inútil de fugir da minha estúpida existência. Já conto sessenta anos. São muitos, acreditem. Muitos anos fechado em gaiolas de ar invísivel, acorrentado por amarras de dor. Dava para chegar à água, ao néctar da vida: ao corpo dela. Os longos cabelos escondiam-lhe as costas. As pernas altas e finas apoiavam-se em sapatos altos cor de mel, sempre a mesma cor. Mas o resto sempre diferente. O seu olhar azul projectava imagens de sonhos de infância. Parecidos aos meus: viajar de comboio pela América do Sul, ir ao Ártico e subir o monte Evereste. Cada dia um sonho antigo. Cada sonho antigo um desejo de continuar a existir. Helena. De nada te serviu a beleza. Morreste sufocada por demasiados sonhos. Afogada no medo de não os conseguir cumprir. Helena: continuo a percorrer o teu corpo. Quero-te. Desejo-te.








