quinta-feira, novembro 30, 2006
Naquele tempo
Em tempos caminhei por essas ruas. Em passos pequenos e lentamente afogava-me no canto dos sinos. Perdia-me naquela sensação. Agarrava a tua mão com força. Fugia do teu olhar. Hoje só o consigo imaginar e não me surpreendo que ficasses admirada. As ruas eram fechadas dos lados, com janelas e portas a servirem de enfeite para os olhos. Para os nossos e para os dos outros. Aqueles que espreitavam entre as cortinas. Em tempos apercebi-me de como é mais rico ouvir os sinos do que deambular de cortinado em cortinado à espera de um momento de voyeurismo. Naquele tempo apercebi-me da importância dos sentidos, coisa que não aparentemente não tinha consciência de existirem. Naquele tempo aprendi a ser.
quarta-feira, novembro 29, 2006
Enaida
Enaida tem asas e não fala. Outrora os seus ombros carregaram lenha, os seus olhos piscaram de emoção e cantara junto ao rio. Aos poucos Enaida deixara de sorrir, mas iniciara um lento e silencioso diálogo com seres invisíveis que habitam as casas tristes.
Um dia levantou um monte de lenha com um movimento longo dos cabelos negros. A sua força atraíra as atenções e pediam-lhe que executasse as mais pesadas tarefas com um abrir de olhos, com levantar das pontas dos pés.
Todavia, Enaida tornara-se imune às súplicas, aos poucos fora-se tornando num ser com asas e sem fala.
Sem saber porquê fora arrastada pelos cabelos até à rua, exigindo-lhe um milagre. Longas facas escreveram sentenças na sua pele, longas varas entoaram o cântico dos seus ossos.
Enaida espera que a noite amiga a abrace e afaste os seus perseguidores. Enaida fita ao longe o rio e a sensação que é nele estar dentro.
Um dia levantou um monte de lenha com um movimento longo dos cabelos negros. A sua força atraíra as atenções e pediam-lhe que executasse as mais pesadas tarefas com um abrir de olhos, com levantar das pontas dos pés.
Todavia, Enaida tornara-se imune às súplicas, aos poucos fora-se tornando num ser com asas e sem fala.
Sem saber porquê fora arrastada pelos cabelos até à rua, exigindo-lhe um milagre. Longas facas escreveram sentenças na sua pele, longas varas entoaram o cântico dos seus ossos.
Enaida espera que a noite amiga a abrace e afaste os seus perseguidores. Enaida fita ao longe o rio e a sensação que é nele estar dentro.
Ter fé
Ter fé é crer, é acreditar. Júlio tem fé. Acredita em si próprio. Todos os dias caminha com passos novos. Todos os dias renova a sua crença, a sua esperança. Porque ter fé é ter força interior para viver. Ele gosta de viver, de rir, de chorar, de olhar para dentro de si e também para fora. Júlio tem fé porque a crença faz a força. E a força pode concretizar o mais pequeno desejo.
O caminho é a verdade
Em todas as histórias se busca a verdade.
Uma revelação pessoal, a demanda do santo graal, a descida aos infernos, volta ao mundo em oitenta dias, para entender que a única revelação possível é que vivemos de forma maior ou menor durante alguns instantes e temos a noite eterna como único final.
É a verdade que difere a escolha do caminho.
Uma revelação pessoal, a demanda do santo graal, a descida aos infernos, volta ao mundo em oitenta dias, para entender que a única revelação possível é que vivemos de forma maior ou menor durante alguns instantes e temos a noite eterna como único final.
É a verdade que difere a escolha do caminho.
terça-feira, novembro 28, 2006
Acredita
Tudo é possível. Até o céu. Pular de nuvem em nuvem ou de galho em galho. Se desejarmos com força suficiente. Se lutarmos sem nunca desistir. O céu não é o primeiro prémio nem é mesmo nenhum. É só um estado de espiríto que muitos almejam mas que poucos vivem.
O grito anónimo
O nú é um estado meramente sugestivo para uma sociedade vestida.
A história do macaco nú que imagino deve começar agora:
Era um rei, cheio de riquezas, elogios e almofadas fofas que decidiu descobrir quem verdadeiramente era. Despiu-se, retirando colares e pulseiras e anéis, vestiu um dos trapos de limpar o pó à prata e ao ouro e saiu para a rua. Durante longos dias ninguém deu por ele, ignorado e só, divertiu-se a olhar de frente todas as lojas, todos os homens.
Os nós que dera nos trapos foram-se soltando, até ficar nú no mercado mais movimentado da cidade.
Um grito anónimo revela:
- Olha, parece um macaco nú.
A história do macaco nú que imagino deve começar agora:
Era um rei, cheio de riquezas, elogios e almofadas fofas que decidiu descobrir quem verdadeiramente era. Despiu-se, retirando colares e pulseiras e anéis, vestiu um dos trapos de limpar o pó à prata e ao ouro e saiu para a rua. Durante longos dias ninguém deu por ele, ignorado e só, divertiu-se a olhar de frente todas as lojas, todos os homens.
Os nós que dera nos trapos foram-se soltando, até ficar nú no mercado mais movimentado da cidade.
Um grito anónimo revela:
- Olha, parece um macaco nú.
segunda-feira, novembro 27, 2006
Dinis, o rei leão.
Dinis acorda. Levanta os braços. Abre a boca. E cospe fogo. Os seus olhos são violinos sem cordas que embalam os olhos dos outros. As palavras parecem desenhadas ao pormenor. Este Dinis bem podia ser um dragão. Daqueles que vemos nos desenhos animados. Percorre todos os dias o mesmo caminho: vinte passos para a frente, cinco para a direita. Entala a cabeça entre as grades e ruge como quem pensa em falar. Ruge, ruge, meu Dinis. Porque hoje acordei contigo neste jardim.
sexta-feira, novembro 24, 2006
O velho que vive além
O velho que vive além fala pouco. Por vezes pede esmola, outras vezes vasculha no lixo. Olha distraído para o movimento das ruas e segue, sozinho, em direcção a coisa alguma. A única coisa que o faz entristecer é saber que certos olhos de criança experimentam espanto e medo perante o sossego com que repousa na calçada.
Um dia fora calceteiro. Um dia as suas mãos, outrora hábeis, sabiam de cor as pedras e a cor que nelas há. Mas hoje poderá culpar a loucura, mesmo sem nunca ter sofrido dela.
Falhar na vida é tão semelhante a vencer. Basta um motivo.
O velho que vive além pensa muito.
Um dia fora calceteiro. Um dia as suas mãos, outrora hábeis, sabiam de cor as pedras e a cor que nelas há. Mas hoje poderá culpar a loucura, mesmo sem nunca ter sofrido dela.
Falhar na vida é tão semelhante a vencer. Basta um motivo.
O velho que vive além pensa muito.
quinta-feira, novembro 23, 2006
O apanhador de peixe
Apanhador de peixe: é o que dizem que sou. Aquele vê a preto e branco: é aquilo que pensam de mim. Quem cala consente. E como, realmente, falo pouco, fico sozinho na minha solidão de três metros e meio. Serve para trabalhar e com o dinheiro que ganho dá para sobreviver. Compro uma saca de batatas, uns quilos de tomate, cebola e alhos. Como peixe. Sai mais barato. De noite, acendo um candeeiro a petróleo que é herança de família. Gosto de guardar essas coisas. Depois viajo com pegadas de olhar e pestanejos intermitentes pelas palavras escritas. Sempre eternas como rótulos que se pregam nas testas das pessoas. Viagens de ida e regresso ou só de ida. É conforme o bilhete que nos calha.
Chama
Dentro de mim vive uma chama. Não um fogo que arde e consome, nem o oposto descrito por Camões. Dentro de mim a chama é uma voz lenta que diz infinitamente o meu nome.
Mas se mo perguntarem não o sei dizer.
Sei o que faço. Sei, por vezes, o que digo.
Vendo-me. Até tenho anúncio no jornal. Um no Correio da Manhã, outro no Público. Há que ser democrático. Um dia terei um anúncio no Guardian.
A chama vive dentro do vender-me, sem remédio. Vive dentro do quarto alugado que há em mim. Vejo, nos meus sonhos, grandes cartazes que dizem o meu nome e dentro dele só rimas falsas no entreter da vida, do espanto de pôr um preço exacerbado em partes de mim que antes fossem de carne, que antes fossem vivas para poderem morrer, apodrecer e esquecer o anonimato do esquecimento.
Oiço o batimento deste chamamento. O meu coração procura seguir os seus ritmos. Mas eu vendo-me.
Mas se mo perguntarem não o sei dizer.
Sei o que faço. Sei, por vezes, o que digo.
Vendo-me. Até tenho anúncio no jornal. Um no Correio da Manhã, outro no Público. Há que ser democrático. Um dia terei um anúncio no Guardian.
A chama vive dentro do vender-me, sem remédio. Vive dentro do quarto alugado que há em mim. Vejo, nos meus sonhos, grandes cartazes que dizem o meu nome e dentro dele só rimas falsas no entreter da vida, do espanto de pôr um preço exacerbado em partes de mim que antes fossem de carne, que antes fossem vivas para poderem morrer, apodrecer e esquecer o anonimato do esquecimento.
Oiço o batimento deste chamamento. O meu coração procura seguir os seus ritmos. Mas eu vendo-me.
quinta-feira, novembro 16, 2006
E se as nuvens caissem?
A minha mãe disse-me: e se as nuvens pudessem cair? Nunca tinha pensado nessa possibilidade. E não sei se será assim tão improvável. Aquela pergunta teve inúmeros efeitos em mim. Fez-me pensar como frágil é o sonho, como treme a vida, como o medo impossibilita o pensamento. Hoje decidi enfrentar todos os meus medos, aceitar todos os meus desafios. Talvez me ajude a crescer. Talvez me torne mais forte. A verdade é que não sei. E no meio de tanta incerteza, temos de ter a destreza suficiente para viver por debaixo de nuvens que podem um dia cair.
quarta-feira, novembro 15, 2006
Passagens estreitas
Caminho por passagens estreitas.
Dentro da fada que me olha, sem alento, vejo um novo ser emergente que provavelmente me irá substituir sem ter medo de fazer todas as imagens que mentalmente abomino.
Chega de permanecer à espera de um futuro. Mas a minha natureza doida e marada empurra-me para todo o desatino que é permanecer.
Chega de silêncios forçados, de falsas doçuras e falsos dentes dentro de falsas bocas e dentro de ocas mentes.
Não suporto mais os dias que se acumulam em anos e dentro desses anos apenas o tique taque do tempo que martelo a minha carne feita em bifes para fritar.
Acabarei por abrir os trincos e esperar que os ventos me tragam a dor.
Dentro da fada que me olha, sem alento, vejo um novo ser emergente que provavelmente me irá substituir sem ter medo de fazer todas as imagens que mentalmente abomino.
Chega de permanecer à espera de um futuro. Mas a minha natureza doida e marada empurra-me para todo o desatino que é permanecer.
Chega de silêncios forçados, de falsas doçuras e falsos dentes dentro de falsas bocas e dentro de ocas mentes.
Não suporto mais os dias que se acumulam em anos e dentro desses anos apenas o tique taque do tempo que martelo a minha carne feita em bifes para fritar.
Acabarei por abrir os trincos e esperar que os ventos me tragam a dor.
sexta-feira, novembro 10, 2006
Nada. E tu nada.
Naquele dia não me deste a tua mão. Nem me disseste nada. E eu, engolida na minha curiosidade colhi do tempo uma maçã dourada. E tu, calado. Lembro-me do seu sabor. Sabia ao cheiro das rosas. Depois disso, não tenho qualquer recordação. A minha mente fica escura e depois tenta confundir-me com imagens sem sequência lógica. Fico perdida. Fico perdida naquele beco escuro do Burgau. As borboletas trazem-me o cheiro a mar. Vem embrulhado em papel vegetal. O sal que o cheiro contém solidifica-se nas minhas narinas, parece cimento. Os olhos perdem-se um do outro, ficam sós no vazio. Adormeço. Acordo. Acordo e adormeço. E tu, nem uma palavra. Nem um abraço. Nem uma mão.
segunda-feira, novembro 06, 2006
A árvore da sabedoria
No início havia a Palavra. Através do seu som o mundo foi construído. Sete dias. Mar, céu, noite e dia, animais do mar, do céu e da terra. Ruído criador em forma de escamas, penas e pêlo.
O homem nasceu num jardim. Pertencia ao mar, aos céus, à terra e ao sonho. O homem experimentou o frio e o calor, a morte e a vida. O mundo tinha apenas um limite. A árvore da sabedoria que ele tanto anseia por mergulhar.
Ao arriscar, perdeu o jardim. E em toda a sua existência procura o paraíso que é não saber. Apenas sentir.
O homem nasceu num jardim. Pertencia ao mar, aos céus, à terra e ao sonho. O homem experimentou o frio e o calor, a morte e a vida. O mundo tinha apenas um limite. A árvore da sabedoria que ele tanto anseia por mergulhar.
Ao arriscar, perdeu o jardim. E em toda a sua existência procura o paraíso que é não saber. Apenas sentir.
domingo, novembro 05, 2006
Quero ser só eu
Olhar para trás. É coisa que faço sempre que ando. Não consigo deixar de o fazer. Não faz sentido. Gosto da perspectiva. Como se pudesse olhar para o passado. Forma-se um túnel do tempo e espreito sempre por ele com o olho direito. As pessoas que andam em sentido inverso, as que ficam a conversar, os velhos sentados nos bancos e, nesta altura do ano, o homem das castanhas assadas. O túnel abre por segundos. É como tudo o resto que é bom, dura pouco tempo. Há que aproveitar todas as oportunidades. Um dia poderei escrever ou pintar as imagens que vejo. Espero que sejam únicas e que mais ninguém saiba desta peculiaridade do universo.
sábado, novembro 04, 2006
Trata-me como uma página de um livro
Pedir perdão é pedir sossego, quando nada mais pode ser feito para impedir um erro.
Para Teresa mais valia não chegar a errar. Dizia-o muitas vezes e ria, feliz, pela sua descoberta. Noutros dias soubera apenas frases lânguidas, prontas para serem entendidas como pedaços concretos e corpo e luar. Hoje, fala apenas com cinismo. Pólos diametralmente opostos, encadeados, sinónimos e antónimos, frases-feitas como blasfémias à língua portuguesa.
Teresa quer ser original. Mas só sente insatisfação. As palavras fazem pouca companhia. Tem vontade de gritar «Trata-me como uma página de um livro». Como resposta ouve apenas o silêncio. Entre todo o mar é única rocha solitária. Mas antes a forca que a piedade.
Para Teresa mais valia não chegar a errar. Dizia-o muitas vezes e ria, feliz, pela sua descoberta. Noutros dias soubera apenas frases lânguidas, prontas para serem entendidas como pedaços concretos e corpo e luar. Hoje, fala apenas com cinismo. Pólos diametralmente opostos, encadeados, sinónimos e antónimos, frases-feitas como blasfémias à língua portuguesa.
Teresa quer ser original. Mas só sente insatisfação. As palavras fazem pouca companhia. Tem vontade de gritar «Trata-me como uma página de um livro». Como resposta ouve apenas o silêncio. Entre todo o mar é única rocha solitária. Mas antes a forca que a piedade.
Deus me perdoe
De onde está Marco só se vê o portão. De ferro enferrujado pelo tempo que passou demasiado depressa. Marco caminha em passos de tartaruga. Sente-se leve. Sabe que começa uma nova vida. Ou pelo menos, um novo caminho. Como será? «Pensa.» Caminha. Vai Marco, caminha.
Os castanheiros, as árvores velhas deste sítio, protegem o caminho de terra batida. Choveu. Há lama. As botas de Marco colam-se e Marco hesita e pára. De imediato, um dos guardas dá-lhe um empurrão. Deve continuar a andar. E assim acontece. Sente-se protegido pelas paredes verdes e pelo tecto transparente. Já se vê o edifício, imponente na vegetação que o rodeia. «Enorme» pensa a sua voz interior. As janelas são fechadas por grades tão ferrugentas quanto o portão e nelas os outros prisioneiros fecham as suas mãos para içar o seu corpo. Só assim conseguem ver quem é o próximo.
Marco chora. Chora por ser mais fácil violar e matar uma mulher indefesa do que entrar num antro de assassinos. Na nova vida ou neste novo caminho, Marco torna-se uma possível caça. Saberá o que é viver com medo de lhe apunhalarem pelas costas. Saberá o que é morrer sem causa, apenas por causa de alguém que age de forma propositada.
Chegam à porta da prisão. Há silêncio. Como se alguém pedisse ao mundo para se calar. Marco entra. «Deus, perdoa-me» pensa para si.
Chegam à porta da prisão. Há silêncio. Como se alguém pedisse ao mundo para se calar. Marco entra. «Deus, perdoa-me» pensa para si.
Nós não lhe concedemos perdão e esperamos que a natureza faça justiça. Ou talvez não.
sexta-feira, novembro 03, 2006
Espera
Guardei o teu silêncio num frasco de vidro. Segui as tuas pegadas na calçada. Andas depressa. Bem depressa para uma mulher. Deixas no caminho o teu perfume. Paira como nevoeiro. E na minha mente, ainda a imagem do portão a quebrar-se. Fugi sem pensar. E como é bom viver sem pensar. Tira-nos peso. Será que nos tira gordura? Só sinto o efeito: andar mais leve. Com este andar posso correr como nunca antes mas não é depressa mais porque se me enganar num caminho não consigo voltar atrás para escolher o certo. Não é feio errar. Admitir que se erra é sinal de maturidade. Já não chove. O sol brilha. É hora de ir. É hora de escolher outro caminho. Espera por mim, não andes tão depressa...
Espaços abertos
Entre as mãos repousa um dia feliz. Nasceu sem ninguém dar conta, metido entre espaços abertos, alguma chuva e um infinito sol. Definitivamente, houve um riso simultâneo. Vive nas igrejas solenes; nas praças onde a calçada conta histórias; nas casas onde as paredes têm, para além dos ouvidos habituais, enormes sorrisos; no sono das crianças na véspera de Natal.
Entre as mãos daquela pessoa está um dia feliz. Que fará ela com ele?
Entre as mãos daquela pessoa está um dia feliz. Que fará ela com ele?


















